Deputado estadual cumprindo o sexto mandato consecutivo, José Roberto Teixeira, 75, assume pela primeira vez um cargo de mando na Assembleia Legislativa. Ele é o primeiro secretário da Mesa Diretora presidida pelo peemedebista Júnior Mochi. Eleito sempre pelo mesmo partido (PFL e seus sucedâneos) e com o mesmo número, Zé Teixeira (DEM), é um entusiasta das reformas políticas: Você não constrói uma política coerente, clara e transparente em um país que tem 34 partidos políticos. Existem partidos por aí sem nenhum representante e quando chega a época de eleições o candidato diz que tem 17 partidos o apoiando e depois as pessoas que não tem nenhuma noção do que é a política fica exigindo cargo. É por isso que o Brasil só atrasa diz o deputado que ainda afirma ter entrado na política para tentar corrigir algumas injustiças praticadas contra a classe produtora rural, da qual orgulha-se de pertencer e defender. Sobre o cargo de primeiro secretário da Assembleia, ele cita Londres, Rigo e Jerson, como modelos que ficaram no passado e diz que, se eles tinham um modelo, ele pretende implantar o meu modelo de administrar de maneira bem clara e transparente. Confira a íntegra da entrevista com o parlamentar do Democratas:
IMPACTO - Como o senhor começou a carreira política, já que o senhor vem da área da pecuária?
ZÉ TEIXEIRA - Primeiramente é a convivência que você tem com o povo. Eu tenho uma amizade muito profunda com o saudoso Jorge Antunes Salomão, um dos pioneiros do rádio, ainda AM, que começou em Dourados. Tenho uma amizade muito próxima com o Dr. George Takimoto. Tive uma amizade grande com o saudoso {senador} Rachid Saldanha Derzi. Foi assim que um dia me convidaram para participar de um partido político e eu entrei no PP, onde ocorreu o começo de uma carreira política. Depois veio o PFL e eu nunca troquei de partido. Meus mandatos foram todos construídos no PFL, hoje o Democratas. Depois o meu irmão, Humberto Teixeira, se elegeu deputado estadual e em seguida prefeito de Dourados. Foi quando as pessoas começaram a dizer que eu deveria ser candidato, embora eu nunca tivesse disputado nem eleição para vereador. Mas, eu tinha um sonho como produtor rural. Nascido e criado no campo eu sempre vi algumas injustiças contra o setor produtivo. E então eu pensei: vou entrar na política e quem sabe eu consiga amenizar, de uma maneira mais clara e transparente, essas injustiças. Em 1994 eu me candidatei e me elegi deputado estadual, no segundo governo do Dr. Wilson Barbosa Martins (PMDB), que foi um governo complicado. Mas, eu fui aprendendo dentro do próprio plenário a fazer o meu trabalho, sempre em busca de da melhoria na segurança pública, segmento em que se acabara de criar o Departamento de Operações de Fronteiras na região da Grande Dourados, onde ninguém suportava a criminalidade, os roubos de tratores e maquinários em fazendas. Assim fomos trabalhando e, em meu quarto mandato, cheguei a ser o segundo mais votado no Estado. Hoje continuo na política tentando ajudar a melhorar a saúde, a educação, a segurança pública, que é a única maneira de termos sossego no mundo violento de hoje. Todos os dias nós trabalhamos por essas melhorias. A política brasileira, em minha visão, é difícil, pois você não constrói uma política coerente, clara e transparente em um país que tem 34 partidos políticos. Existem partidos por aí sem nenhum representante e quando chega a época de eleições o candidato diz que tem 17 partidos o apoiando e depois as pessoas que não tem nenhuma noção do que é a política fica exigindo cargo. É por isso que o Brasil só atrasa. Para ter uma boa gestão na política hoje, tem que haver eficiência, transparência, clareza e pessoas técnicas. Não se deve por um amigo que te ajudou na campanha em um cargo técnico se ele não vai produzir. Isso acaba te atrapalhando. Eu ajudei o {governador} Reinaldo Azambuja (PSDB) a construir esse mandato e acho que ele vai fazer uma boa gestão. Creio que ele escolheu um ótimo quadro técnico. Acredito que o Reinaldo vai fazer uma gestão mais técnica. O Eduardo Riedel, por exemplo, é uma pessoa extraordinária no comando das coisas dele; também o Jayme Verruck, que veio da Fiems, o Márcio Monteiro, da Fazenda. São cargos bem técnicos ocupados por pessoas que são exemplo da política. Não dá pra fazer uma boa gestão quando se faz política dentro da própria gestão. Eu acho que a política tem que ser fora. Quem tem que fazer política dentro de um governo é a Casa Civil que tem que conversar com o vereador, o prefeito e os empresários. O Reinaldo está fazendo uma ótima gestão. O povo está em primeiro lugar e o lema dele foi cuidar das pessoas. Espero que isso aconteça e eu vou ajudá-lo a fazer isso da melhor maneira possível.
IMPACTO O senhor assumiu agora a primeira Secretaria da Assembleia Legislativa, o que está fazendo de diferente para a transparência dentro da Assembleia?
ZÉ TEIXEIRA - Ninguém faz nada diferente, cada um que passou pela Assembleia Legislativa, desde que o Estado foi dividido, tem a sua história, como Londres Machado, Ary Rigo, Jerson Domingos {todos ex-deputados e ex-presidentes} e tantos outros. Eles tinham um modelo e eu vou implantar o meu modelo de administrar de maneira bem clara e transparente, como os outros fizeram. Mas, o mundo muda e as coisas evoluem. Eu acho que o povo deve saber onde está sendo colocado o tributo que ele paga. Então eu quero fazer na minha história algo claro e bonito. Pelo respeito que eu tenho pela minha família eu entrei na política com o interesse de ajudar e servir o povo. A questão de vida particular eu já tenho minha empresa rural. Eu lido com a lavoura, sou criador de gado; então, essa é a minha atividade e a política é para servir o povo e também para deixar uma história escrita da minha passagem pela política no Estado do Mato Grosso do Sul que eu adoro. Embora eu seja baiano, já me considero sul mato-grossense de coração.
IMPACTO - Vai haver concurso público para Assembleia? Como está sendo tratada essa situação?
ZÉ TEIXEIRA - A Divisão do Estado e a implantação da Assembleia Legislativa são fatos ocorridos há mais de 30 anos, então o quadro existente hoje na Assembleia é formado de pessoas que ajudaram a escrever a história de Mato Grosso do Sul e participaram até da primeira Constituinte. Agora, com o deputado Júnior Mochi (PMDB) na Presidência, há a proposta de um Programa de Aposentadoria Incentivada. Primeiro, vamos ver quais são as pessoas que tem seu tempo certo e quem quiser aderir, vamos oferecer um acréscimo de mais de sete salários contínuos para quem quiser se aposentar. O cargo técnico tem que ser concursado, serviços técnicos tem que ser concursado, mas, em minha opinião concurso público para deputado é complicado, porque nós levamos para a Assembleia Legislativa aquelas pessoas que confiamos e que acreditamos e que ajudaram no projeto da execução do seu mandato. Então, na Assembleia de hoje, cada deputado tem uma verba onde ele contrata pessoas de sua confiança, mas, para os cargos essenciais tem que haver concurso público, até porque estão aposentando as pessoas experientes pelo tempo de trabalho, pessoas que já têm 30 anos de trabalho e que estão no tempo de aposentar. Depois disso feito, nós vamos saber o que restou do quadro e ver quais são os técnicos que precisa para tocar os cargos com eficiência para que possamos saber quantos cargos vai existir para fazer o concurso público.
IMPACTO - Em outras administrações não havia concordância entre presidente e secretário. Nesta administração a Presidência e a Secretaria estão falando a mesma linguagem?
ZÉ TEIXEIRA - Eu não tenho esse conhecimento, porque eu sou deputado e pela primeira vez eu entro na Primeira Secretaria através de um consenso com os meus pares. Nos outros mandatos eu não entrei nenhuma vez na 1ª Secretaria e também nunca fui de chegar e pedir coisas para o secretário. Eu vivia em harmonia entre o secretário e o presidente. Eu estou trabalhando dentro daquilo que me confere a minha atribuição e em comum acordo com o presidente e com todos os deputados, porque na Assembleia Legislativa eu não sou dono. Quem é dono são os 24 deputados estaduais e o povo. Eu estou fazendo o que precisa ser feito e estou muito feliz quanto à minha convivência com os meus pares e principalmente com o presidente que é uma pessoa que estimo; uma pessoa competente e fácil de lidar. Estamos convivendo muito bem, tanto com ele quanto com todos os demais deputados, demais membros da Mesa Diretora. Temos uma harmonia muito boa, fazemos reuniões toda semana, mudamos a forma de aprovar os projetos, então o modelo melhorou e ficou mais fácil para o povo entender.
IMPACTO - Falando um pouco sobre política, o senhor é do DEM. Em sua opinião, há possibilidade de o DEM se fundir com o PTB?
ZÉ TEIXEIRA - Eu não vejo essa possibilidade. A ideologia é completamente diferente, o Democratas não participa do governo da presidente Dilma e o PTB participa. Jamais o PTB faria uma fusão para sair da base e jamais o Democrata faria uma fusão para entrar na base. São partidos de ideologias diferentes.
IMPACTO - Em nível de Estado o Democrata é muito forte na região de Dourados. No próximo ano teremos eleições para as prefeituras municipais. O Democratas tem candidatura própria ou vai se coligar com outros partidos?
ZÉ TEIXEIRA - O que faz o partido são as pessoas e não a cabeça. Você constrói uma cidade com diretório e vários representantes. Em Dourados o Democratas é forte tanto é que a bancada de vereadores na Câmara Municipal é a maior de todas. Então estamos tentando fazer com que o partido cresça, não apenas em Dourados, mas aqui em Campo Grande também, onde temos o vereador Ayrton Saraiva de vários mandatos. Temos o deputado federal e presidente estadual do partido Luiz Henrique Mandetta. Acredito que a tendência do partido é crescer e quem não participa das eleições não cresce. Para crescer o partido tem que ter mandato, o partido está arrumado no Estado todo e se puder ter candidato em todos os municípios seria bom. Agora, onde não pudermos ter candidatos próprios o ideal é fazer uma coligação dentro da ideologia do partido como, por exemplo, entre o PSDB e Democratas que sempre andaram juntos tanto no nível nacional quanto em quase todas as cidades do Estado. Não é porque hoje o governador é do PSDB que eu estou dizendo isso. É que sempre fizemos assim, tanto é que na campanha do Reinaldo que foi o deputado federal mais votado do Estado eu fiz dobradinha com ele e neste mandato dele eu fui o segundo mais votado dobrando com ele em todas as cidades do Estado. Então, eu acredito tenho colaborado, ajudado e vou continuar ajudando. Eu já tenho 75 anos de idade, já sou bisavô, já está quase na hora de pensar em pendurar a chuteira. Estou casado há 54 anos com a dona Ivanilde, sou apaixonado pelo setor produtivo, sou ativo e trabalho nas minhas coisas: lavoura, gado, compro e vendo; faço negócios. Eu sou um homem muito ativo apesar da idade, mas, eu tenho uma impressão de que a política agora vai ficar para os mais novos, o político tem que entender que ele tem que ser útil, acabar com essa prática maldita da política que se vê na televisão, hoje, que é a prática da corrupção, do toma lá da cá e do favorecimento. IMPACTO - Dizem que em Brasília há possibilidade de fazer a prorrogação dos mandatos. O senhor acredita que vai ser prorrogado esse mandato de prefeito?
ZÉ TEIXEIRA - Em minha visão, para moralizar a política e a democracia, primeiro, tem que diminuir a quantidade de políticos e, segundo, teria que fazer isso em uma eleição conjunta. Se pegarmos os valores dos gastos de eleição de dois em dois anos e fizermos economia dá para sustentar uma saúde de primeiro mundo no Brasil só com a economia dessa eleição. Eu acho que as eleições deveriam ser gerais e que os mandatos deveriam ser cinco anos e não quatro, pois cinco anos seria um mandato mais coerente. Até já houve no Brasil mandato de cinco anos. Acho que não deveria ter reeleição nem do Legislativo e deveria diminuir a quantidade de partidos. Se isso passar será benéfico para o Brasil, pois, a economia seria muito grande. Quando dizem que o dinheiro tem que ser público e não privado, isso é uma utopia, quem mais fala nisso na reforma eleitoral é o Partido dos Trabalhadores e, se olharmos hoje, de onde vem o dinheiro das campanhas políticas, por vezes as companhas são até oficiais de colocar na conta do partido, mas a origem dele não é oficial. A compra do voto é horrível. Por exemplo, no Nordeste, que é uma região que fica anos sem chover, há muita miséria, pessoas dependem de cesta, de sacolão e, em um país rico como o Brasil, uma pessoa não ter o que comer é deprimente e acontece como na eleição passada quando votos foram dados por medo de perder benefícios. Acredito que agora o Brasil passa por uma transformação muito grande, a nossa economia está muito mal, o estrago da Petrobras foi maléfico para o Brasil, acho que a Dilma consegue terminar o mandato, mas não consegue provar que o modelo do PT administrar é bom.
IMPACTO Nos últimos meses ocorreram movimentações populares no País. Qual a sua avaliação desses movimentos que estão acontecendo contra a corrupção, principalmente?
ZÉ TEIXEIRA - É muito modismo. Quando o passe do ônibus subiu 20 centavos em São Paulo começou esse modismo. Houve muito desrespeito às leis, quebraram muitos bens privados. Que culpa tinha as empresas se teve aumento de 20 centavos na tarifa dos ônibus? Isso virou uma moda. Agora tem que ter paciência. O povo brasileiro votou e agora tem que ver o que acontece. Tudo que a Dilma disse que não ia fazer ela fez. Na campanha eu disse muitas vezes que tinha um empréstimo bilionário do BNDES para as agências de energia elétrica, tanto na distribuição quanto na energia e eu disse que o povo iria pagar a conta e a energia subiu acima de 35%. Mexeram no benefício do trabalhador e foi dito que não mudaria nada. Os juros subiram absurdamente. Em passado recente tiraram o PIS e o Confins dos carros e derem prejuízos para os municípios, entupiram a cidade de carros e eu não sei o que essas pessoas vão fazer com o financiamento porque o carro envelhece e desvaloriza e as cidades estão entupidas de carros sem que planejassem um transporte público descente para as pessoas usufruírem. Hoje é difícil ir ao centro da cidade e estacionar seu carro. Uma família de classe média tem três carros sendo que um poderia resolver o problema de todos. Com isso o trânsito virou um caos. Hoje tem muita coisa para ser ajustada na economia brasileira. Todos esses ajustes e apertos vão ser passados agora. Hoje eu vi que teve um corte de 70 bilhões no orçamento e onde serão os cortes? Na educação, na saúde, na segurança pública, nos projetos sociais? O Brasil é um país administrado sem planejamento e o ajuste vai passar no período da presidente. Eu acredito que ela conclua o mandato, mas ela vai sair desgastada, devido o modelo de o PT administrar o Brasil.
IMPACTO - Sobre a energia, tem uma CPI na Assembleia Legislativa em andamento contra Enersul. Essa CPI vai mesmo para investigar? Como fica essa CPI?
ZÉ TEIXEIRA - Quando você administra mal acontece esse tipo de coisa: a Enersul foi vendida no governo passado e foi um ajuste do Governo do Estado com a União. O Estado aceitou a exigência do Governo Federal para fazer um alongamento da dívida do Estado vendendo a empresa de energia elétrica que deu um grande prejuízo para Mato Grosso do Sul. Hoje vemos que a tecnologia mudou e melhorou muito. Vemos quantos funcionários precisam hoje para administrar a energia no Mato Grosso do Sul e quantos tinham antes. Tinha um prédio no Parque dos Poderes com dois mil e quinhentos funcionários da Enersul. Hoje a empresa é enxuta e ganha dinheiro. A Enersul vendeu para uma empresa portuguesa, depois uma tal de Rede comprou e agora ouvi falar que fizeram uma auditoria e que essa empresa Rede estava falida e a Energiza assumiu. Tem um passivo de 700 milhões que ninguém diz que assumiu. O que está sendo investigado, através da CPI é a empresa Rede, porque a outra que entrou não tem o que investigar, porque ela pegou uma auditoria feita através de uma empresa e assumiu a Rede, agora se houve prejuízo para o consumidor que na outra CPI foi provado que burlaram o balanço e que tinha aumentado a energia acima do que era permitido através das agências reguladoras e esse dinheiro foi devolvido na conta, tanto é que foram três anos sem subir a energia elétrica nessa empresa que foi vendida que é a empresa Rede. O que eu ouço falar é que dentro dessa empresa Rede que foi mal administrada, existiam pagamentos para pessoas que não eram da empresa em Mato Grosso do Sul. Se nesse prejuízo houve reflexo ao consumidor, eu acho que a empresa que assumiu é responsável pelo valor do consumo da energia eletrica e se houve algo doloso e mal feito dentro da empresa que vendeu não é problema da Assembleia Legislativa fiscalizar. O que a Assembleia tem que fiscalizar é se houve prejuízo para o consumidor. Essa é nossa obrigação. Mal feito de empresa, não.